Relatio – Circulus Lusitanus
Moderator: Em.mo Card. DE AVIZ João Braz
Relator: S.E. Mons. DA SILVA MENDES, S.D.B., Joaquim Augusto

Interpretar: Fé e discernimento vocacional

O círculo, a partir das instruções recebidas, identificou os seguintes núcleos generativos:

– A benção da juventude: Expressão feliz, interessante e rica, mas que necessita ser melhor explicitada. É necessária também uma melhor fundamentação da dimensão bíblica nesta II parte, já que muitos jovens não entendem quando se fala dos personagens bíblicos. Falta uma história narrativa de fundo nesse capítulo, como seria por exemplo a dos discípulos de Emaús: estes reinterpretam a própria vida à luz do Cristo pascal. Ao reconhecer os elementos de benção da juventude, não podemos esquecer o lado frágil da sua existência, que pode se tornar oportunidade e lugar teológico.

– A dimensão humana, antropológica: Há no coração de cada jovem uma aspiração pela felicidade, o desejo de ser considerado, valorizado e amado. Num contexto de incerteza, precariedade e insegurança, necessitam da proximidade de uma Igreja que se faz presente em suas vidas sobretudo a partir de outros jovens que, a partir de sua experiência de fé, podem aquecer os corações frios e indiferentes com a própria disponibilidade a acolher, caminhar juntos e dar razões de sua esperança.

– A mudança de época nos desafia a repensar a fé e o modo de vivê-la no mundo de hoje. Há uma mudança da forma como os jovens vêem a realidade, como interpretam a vida, quais são as suas perspectivas de futuro e de realização pessoal. Tal época de transição, em toda a sua complexidade, precisa ser vista como uma oportunidade. A pessoa de Jesus Cristo pode ser chave de resposta para os desafios e sinal de esperança para os jovens em dificuldade de encontrar um sentido para a própria vida.

– O fenômeno da imigração: Fala-se muito sobre a imigração juvenil africana para outros continentes, não obstante ela aconteça principalmente dentro do próprio continente. Nesse contexto de fragilidade, os jovens imigrantes sofrem pelo choque cultural e são muitas vezes aliciados por muitos grupos, religiosos ou não. Como acompanhar estes jovens, valorizar suas potencialidades e promover a sua integração e evangelização?

– A linguagem juvenil: Privilegiar, no diálogo com os jovens, a linguagem existencial, de proximidade, relacional, de amor gratuito, desinteressado, que lhes toca o coração, chega à vida, desperta esperança e o desejo de bem. É preciso aproximar-se dos jovens com a gramática do amor. A linguagem que os jovens entendem é a de quem dá a vida, de quem está ali por eles e para eles, daqueles que, apesar de seus limites e fraquezas, buscam viver com coerência a própria fé.

– No que diz respeito à fé e sua transmissão (n. 82), na sua relação também com a dimensão vocacional, constatamos que a crise das vocações começa em uma crise de fé. Muitas vezes a fé hoje é transmitida também por vias não tradicionais, acontecendo até mesmo os casos de pais que despertam para a fé pelo testemunho dos filhos e de muitos jovens através de outros jovens. Não podemos reduzir a fé a uma moral. A proposta cristã precisa ser encarnada em experiências concretas. Faz-se necessário retornar à proposta de Jesus: “Vinde e vede”!, proporcionando às pessoas um contato com comunidades onde se vive com alegria a vida cristã. As transformações de vida ocorrem no caminhar juntos, no peregrinar, na descoberta do diferencial cristão na vida daqueles que seguem a Jesus, mesmo em meio aos próprios limites e fraquezas.

– Afetividade e sexualidade: falou-se sobre as diferenças entre o ensinamento da Igreja e aquilo que é prática entre os jovens. Muitos ignoram, outros questionam, outros são influenciados por ideologia ou por informações científicas em campos onde nem sempre há um consenso. Partindo de principios basicos do ensinamento cristão (como o valor da vida humana e a dignidade do corpo), é possível abrir estradas de diálogo com os não-crentes. É bela e rica a doutrina da Igreja nesse campo. Faz-se necessário apresentá-la com clareza, acreditando na força de atração nela contida e superando a visão daqueles que a vêm somente como algo rígido.

– Maturidade e santidadeGaudete et exsultate é um texto tocante, que desmistifica muitos aspectos da compreensão da santidade, apresentando-a como um chamado para todos. É preciso fazer com que o conteúdo desse documento cheguem às bases, aos jovens. O primeiro na ordem da intencionalidade é o fim. O ideal do jovem maduro é a santidade. A descoberta de Cristo faz com que se desenvolva plenamente a potencialidade do jovem. O jovem que busca a maturidade, que tem como meta a santidade, precisa elaborar e construir um projeto de vida. Ele precisa de ser ajudado a olhar o seu passado, pensar no seu futuro (onde quer chegar), para que possa fazer as suas escolhas no presente.

– Discernimento: Constatou-se a dificuldade de se entender o que é e como realizar o discernimento, devido à pluralidade de acepções do termo (n. 108), dada a realidade complexa em que vivemos. Por isso parece-nos positiva a acentuação do discernimento como uma realidade dinâmica, um estilo de vida (n. 111), que acompanha todas as fases da vida. Contudo, é na fase da juventude que ele é mais premente, porque é nesta fase que se realizam algumas opções fundamentais. Sublinhou-se no processo de discernimento alguns elementos fundamentais, tais como o conhecimento da realidade, a oração, a iluminação pela Palavra de Deus, o acompanhador e a decisão, que comporta uma dimensão de aventura, iluminada pela fé, por vezes acompanhada pelo medo, mas confirmada pelos frutos que gera. Nesse contexto, destacou-se a importância do exercício da liberdade e do seguimento da voz da consciência. Não deve faltar a perspectiva bíblica, colocando Jesus ao centro do processo, em uma perspectiva de discipulado. Não ficar só na dimensão psicológica. É um processo que se desenvolve a partir de um encontro com Deus e dos sinais que Deus vai colocando na vida das pessoas, com momentos de escuridão e luz, sustentados pela fé. Questionamo-nos ainda sobre o que fazemos como Igreja em relação ao discernimento na vida das pessoas que não têm fé.

– Vocação: Levantou-se a pergunta sobre como se entende realmente o termo vocação. Constata-se que, muitas vezes, é uma palavra pouco simpática aos jovens e entendida de forma redutiva. A vocação é um dom e uma graça para o povo de Deus, não é em primeiro lugar para proveito próprio. Sublinhou-se também que o primeiro chamamento é à santidade, a exemplo de Jesus, que passou pelo mundo fazendo o bem. Neste caminho, o jovem encontra também a sua vocação específica. A vocação, porém, é dinâmica, pois comporta escolhas ao longo de toda a vida. Comentou-se ainda que o Sínodo precisaria fazer uma reflexão sobre a vocação daqueles que permanecem solteiros sem nenhuma referência a uma consagração em particular e ao matrimônio (n. 105). É o caso também da realidade das pessoas com orientação homossexual. Não é missão da Igreja dar resposta a todas as realidades particulares, mas é sua obrigação cuidar, acompanhar, ajudar o jovem a dar orientação e sentido para a sua própria vida, ajudá-los a fazer o bem.

– Acompanhamento: Como diz o Instrumentum laboris, o acompanhamento é uma “arte”, ou seja, por um lado nem todos têm o dom natural de o fazer e, por outro, é uma capacidade que pode ser desenvolvida. A arte de acompanhar não se improvisa. Daí a importância de promover a formação de acompanhadores como uma prioridade. Constatamos, porém, a falta de acompanhadores e a necessidade de preparar pessoas para o domínio desta arte, até mesmo entre o clero. Consideramos importante que também os leigos possam assumir o serviço de acompanhamento. Nesse contexto, também se falou da importância do acompanhamento de jovens pelos próprios jovens, que, por sua vez, deveriam ter uma boa experiência de ser acompanhados. O n. 115 oferece elementos valiosos sobre os bons instrumentos para o acompanhamento. Sugerimos que se inclua a importância do acompanhamento da comunidade cristã e sublinhamos algumas qualidades indispensáveis, entre as quais uma profunda experiência de vida espiritual e a bondade. O n. 132 traz uma síntese muito completa sobre as características do acompanhador, formulada pelos próprios jovens na reunião pré-sinodal, que é de considerar. Acentuou-se também a necessidade de uma experiência de vulnerabilidade para compreender bem o acompanhado, recordando a escolha de Pedro por Jesus, para «confirmar» os seus «irmãos» (cf. Lc 22,32). Alguns movimentos eclesiais têm propostas de acompanhamento, mas é também necessário que os jovens as possam encontrar nas estruturas de pastoral juvenil diocesana e paroquial. Há um grande número de consagrados(as) que poderiam prestar este serviço de acompanhamento. Em muitos lugares constata-se que os jovens têm dificuldades de frequentar o sacramento da reconciliação e que isso se deve, em parte, ao modo como é apresentado e celebrado. Na formação dos seminaristassublinhou-se a necessidade de ajudar a superar a tendência ao clericalismo e ao mundanismo espiritual, educando para a humildade e para o serviço. Ajudaria muito a presença de leigos, casais e não só de clérigos, nas estruturas de formação. Sugeriu-se proporcionar aos seminaristas a experiência pastoral de acompanhamento de jovens. No processo de acompanhamento é conveniente ter em conta também a dimensão da correção fraterna, referida no n. 133. Considerou-se ainda que a expressão “direção espiritual” não é a mais adequada, pois se trata de um serviço de acompanhamento espiritual. Em tudo isso há necessidade de conversão institucional e pastoral, que se espera e deseja que aconteça na sequência deste Sínodo.

[Relatório do site da Santa Sé]

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