Encontro do Secretariado Nacional da Pastoral Juvenil
(Casa São Nuno) Fátima, 19 junho de 2015

1.Estamos perante um jubileu extraordinário.

Na Exortação Apostólica EG, que é a carta programática do pontificado do Papa Francisco, há uma expressão que nos introduz e ajuda a compreender o sentido deste jubileu extraordinário proclamado no passado dia 11 de abril: “A Igreja vive um desejo inexaurível de oferecer a misericórdia infinita do Pai a sua força difusiva” (EG 24).

É a partir deste desejo que deve ser lida a Bula da Proclamação do Jubileu “O rosto da Misericórdia”.

O Papa deseja que este jubileu seja vivido intensamente em toda a Igreja – na Igreja de Roma e nas Igrejas locais.

Este jubileu rompe com os esquemas tradicionais dos jubileus, por isso pode ser considerado um jubileu único e original.

A história dos jubileus é caracterizada pelos ritmos temporais de 50 e 25 anos. Os dois jubileus extraordinários respeitaram a data do aniversário da redenção realizada por Nosso Senhor Jesus Cristo (1933.1983).

Este é, por seu lado, um jubileu temático. Assenta fortemente no conteúdo central da fé e pretende recordar à Igreja a missão prioritária de ser sinal e testemunho da misericórdia em todos os aspetos da sua vida pastoral.

Além disto, o Papa fez também um apelo aos Judeus e Muçulmanos para encontrar no tema da Misericórdia o caminho do diálogo e da superação das dificuldades que são de domínio público.

O lema do ano jubilar é tirado de Lc 6,36, Misericordiosos como Pai.

Propõe-se viver a misericórdia seguindo o exemplo do Pai, que pede para não julgar e condenar, mas perdoar e dar amor e perdão sem medida (cf. Lc 6,37-38).

O logotipo, obra do Padre RupniK, apresenta uma imagem muito querida da Igreja primitiva, porque indica o amor de Cristo que realiza o mistério da sua encarnação com a redenção – mostra o Filho que carrega aos seus ombros o homem perdido.

O desenho é feito de tal forma que realça o Bom Pastor que toca profundamente a carne do homem e o faz com tal amor capaz de mudar a vida.

Além disso há um pormenor que não é esquecido: o Bom Pastor com extrema misericórdia carrega sobre si a humanidade, mas os seus olhos confundem-se com os do homem. Cristo vê com os olhos de Adão e este com os olhos de Cristo. Cada homem descobre assim em Cristo a própria humanidade e o futuro que o espera.

A cena é colocada dentro da amêndoa, também esta é uma figura cara da iconografia antiga e medieval que recorda a presença das dias naturezas, divina e humana, em Cristo. As três ovais concêntricas, de cor progressivamente mais clara para o exterior, sugerem o movimento de Cristo que conduz o homem para fora sa noite do pecado e da morte. Por outro lado, a profundidade da cor mais escura sugere o mistério do amor do Pai que tudo perdoa (cf. Conferência de apresentação, Roma, 05/05/15).

2. O que é que se espera do Ano Jubilar?

Com o tema da Misericórdia o Papa Francisco colocou a Igreja num caminho jubilar que pode e deve ser um momento de verdadeira graça para todos os cristãos e um acordar para continuar o percurso da nova evangelização e conversão pastoral que o Papa nos indicou.

Como o Papa Francisco escreveu: “Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda e amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e a perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: «Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre»” (MV 25).

3. Desafios pastorais no âmbito da pastoral juvenil:

– Aprofundamento do conhecimento de Deus, Pai de misericórdia, do seu rosto e do seu coração, mostrados, revelados em Nosso Senhor Jesus Cristo, através da lectio divina das parábolas da misericórdia.

A misericórdia de Deus “tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus (…) Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia” (MV 8).

– Aprofundamento do Sacramento da Penitência do ponto de vista doutrinal, litúrgico, experiencial.

Aprofundar o Sacramento da Penitência e experimentar que “a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até aos mais íntimo das suas vísceras (…) Um amor que provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão” (MV 6), que está ao alcance de todos.

Experimentar a misericórdia, para aprendermos a ser misericordiosos como Deus nosso Pai é misericordioso para connosco: “Somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para connosco” (MV 9).

– Exercitar a misericórdia: aprender a não julgar e a não condenar; a perdoar e a dar amor e perdão sem medida.

“Jesus colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: «Felizes os misericordiosos, porque alcançaram misericórdia (Mt 5,7). Esta é a bem-aventurança que deve suscitar o nosso particular empenho neste Ano Santo” (MV 9).
Experimentar a felicidade desta bem-aventurança, sendo misericordiosos…

– Testemunhar a misericórdia numa sociedade profundamente marcada pela violência e conflitualidade verbal e física, e pela indiferença, insensibilidade, frieza, dureza de coração, falta de humanidade, e pela cultura do “descarte” e pela marginalização…

Diz o Papa: “É triste ver como a experiência do perdão vai rareando cada vez mais na nossa cultura. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para uma nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” (MV 10).

– Ajudar os jovens, caminhando com eles, a descobrirem e a experimentarem a beleza da misericórdia de Deus que cura, liberta, recria, renova, faz viver, é fonte de novas relações, de solidariedade, de fraternidade, de um mundo novo.

Ajudar os jovens a saber perdoar e a libertarem-se dos pesos, angustias, rancores e ressentimentos que se alojam no seu coração.

Encaminhá-los para a experiência da Reconciliação consigo mesmos, com Deus, com os outros, com o mundo, com a sua própria realidade, para viverem com alegria o presente e olharem o futuro com esperança, apesar das fraquezas e fragilidades.

Fazê-los experimentar que a misericórdia de Deus para connosco e para com os outros é fonte de alegria, serenidade e paz e que “é lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida” (MV 2).

Ajudar a descobrir que a Misericórdia “é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (MV 2)

– Ajudar a conhecer as obras de misericórdia corporais e espirituais.
– Levar os jovens a participarem nas iniciativas propostas pela Igreja local, a envolverem-se, a testemunharem a misericórdia e a fazer ver como ela é importante para a construção de uma sociedade melhor, mais humana, mais compreensiva, com mais coração, mais misericordiosa, e a sentirem-se membros de uma Igreja que “tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar à mente de cada pessoa” (MV 11).

Tal como pede e deseja o Papa, que o Ano Santo extraordinário seja “para viver, na experiência de cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus” (MV 25) e ajudemos os jovens a deixarem-se surpreender também.

† Joaquim Mendes
Bispo Auxiliar de Lisboa

Reunião dos Secretariados Diocesanos da Pastoral Juvenil, junho 2015

 

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